Apresentação do Ensaio Deuses Que Dançam - saulolisboa

A tendência em associar a dança a uma ideia de sedução e tentação foi naturalizada em nossa história em função de um hábito cultural. Afinal, brasileiros que somos, temos na malemolência do corpo a marca de um jeito de ser que tanto pode ser valorizada como também criticada em função do discurso ao qual esta característica esteja vinculada. Contudo, esta característica é apenas mais uma das muitas associações possíveis que podemos esperar da dança, que pode muito mais. Afinal, se do corpo a dança se vale exteriormente, é através do sangue que sobrevêm a pulsação interna para o alcance de sua máxima potência. E nesta balança entre o exterior e o interior vamos de encontro à mistura essencial entre carne e sangue, ou ainda, entre matéria e espírito, que nos levará de encontro a um processo de sublimação das imagens, que o fotógrafo Saulo Lisboa nos oferece neste ensaio fotográfico que abaixo apresento.

De todas as imagens que nos cercam em meio às tantas que nos são impostas, somente me agradam aquelas realizadas com sangue e suor. Talvez, porque apenas as que se apresentam imersas nesta mistura revelem os espíritos que as transformam em imagens especiais. Estas imagens reveladoras de espíritos também se caracterizam pela constituição de uma vida própria para além do próprio autor, pois a partir do momento em que o fotógrafo as retira de seu universo particular e as torna públicas, elas se multiplicam encontrando novos significados frente aos olhos e sentimentos de cada um que com elas estabeleça contato.

Todavia, a forma deste contato não tem uma receita específica, porque certamente não passa pelos pormenores das especificações técnicas – que não foram poucas, é bom que se registre, nem tampouco pela análise de uma estética composicional que tanto determina a construção da história clássica da fotografia. Aqui estamos em meio a imagens que nos revelam um processo particular de transe com imagens impregnadas de uma duração que incorpora os tremidos e borrados de uma passagem entre dois mundos. Estes tremidos e borrados bem poderiam estar associados ao som dos atabaques que banham o recinto e compõem a trilha sonora existente no interior de cada uma dessas imagens, que foram realizadas em vários encontros de longas horas – como é de praxe nessas ocasiões. Mas o som que emana dessas imagens não se fará ouvir de forma imediata pela nossa tradicional audição, mas sim por outras formas de percepção que nosso corpo e mente venham a nos permitir, como, por exemplo, o de um olhar-tátil-auditivo. Afinal, estas imagens nos convidam a entrar no ritmo de uma dança da qual todos já ouvimos falar em meio ao nosso sincretismo religioso. Uma dança que ao misturar o sagrado e o profano, bate sua pulsação na terra ao mesmo tempo em que eleva os corpos para um ar rarefeito e nos induz a movimentar imperceptivelmente nosso corpo sem que saibamos muito bem nem o como nem o porquê.

O ensaio fotográfico de Saulo Lisboa expõe um conceito claro por meio da ideia do transe como um elo de passagem entre a matéria e o espírito, entre as dúvidas e a fé, e entre o visível e o ainda invisível aos olhos. Aqui a imagem assume integralmente sua artificialidade e o que se vê não é exatamente o isto foi da imagem fotográfica tradicional, mas sim aquilo que se incorporou de quem ali estava misturado ao modo como cada espectador conseguirá se despir de suas convecções racionais e cartesianas e aceitar-sentir o que não se pode justificar. E por mais que seja difícil não citar a referência seminal do filósofo Nietzsche: “Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar”, que se encontra embutida subliminarmente no título do ensaio, Deuses Que Dançam, e que nos convocam a dança compartilhada dessas imagens, o fato é que talvez não seja a citação acima, mas a que vem a seguir a que melhor traduza a motivação destas associações: “De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito”.

Enfim, o que sobressai do conjunto de todas estas imagens é a sensação de leveza e comunhão que em sua força de expressão as desviam para longe do registro fotográfico – característico de uma longa tradição do fotojornalismo, e se inclinam para o encantador e também nebuloso conceito do que se chama Arte. Mas, se podemos afirmar que o deslocamento se caracteriza como um conceito característico da arte, não há dúvidas que diante de arte estamos. E neste sentido a exterioridade do movimento e a plástica das imagens de Saulo assegura uma emergência abrupta da imagem acima da horizontalidade de quaisquer palavras que aqui ousei apresentar. Porque afinal, estas imagens mais do que falar, dançam. E dançam encantadoramente!


Mickele Petruccelli Pucarelli

Fotógrafo, Professor e Curador.

Doutorando em Artes Visuais

Mestre em Comunicação e Cultura

PPGAV – PPGCOM – UFRJ


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